Doce perigoso
Como a vida dá voltas. Há dois anos atrás eu não podia imaginar que estaria nesse lugar esperando pela pessoa que mais amei. A intensidade que esse sentimento teve dentro de mim, isso não sei explicar. Tive tudo que poderia sonhar, mas agora não tenho nenhum sonho. Eu não sou a vítima dessa história, nunca serei. Recuso-me a ficar chorando por alguma coisa que tenha passado. Sou do tipo de pessoa que segue em frente, mas não posso negar que adoro pensar que vou ter a minha doce vingança.
Como já havia falado, a uns dois anos atrás eu não imaginava que a minha vida estaria desse jeito. Sou um cara que particularmente se acha lindo. Veja bem, tenho uma estatura mediana para os homens, nem alta nem baixa. Tenho um corpo que agrada a todos os tipos de mulheres, ou seja, perfeito. Meus músculos agradam aquelas que se derretem por um corpo sarado, mas ao mesmo tempo posso agradar aquelas que não gostam muito de músculos. Tenho a medida certa para todas. Tenho olhos claros, cabelos cacheados que tem uma cor maravilhosa de mel, gosto de deixar que os cachos apareçam. Minha pele é levemente bronzeada, minha bunda é de deixar qualquer mulher se morder de inveja.
Provavelmente vocês devem estar achando que sou um desses “caras” que apenas tem uma aparência perfeita, mas eu também tenho conteúdo. Sou formado em Ciências da Atividade Física pela Universidade de São Paulo (USP). Como posso ver, eu sou uma pessoa que tem instrução e ao mesmo tempo uma aparência divina. Tenho uma boa lábia e sei conversar com qualquer tipo de pessoa. Não pensem que minha vida é apenas voltada a minha pessoa. Faço parte de uma ONG que trabalha com animais, dôo sangue, sou doador de medula, tirando que um dia por mês ajudo os Amigos do Bem a recolher alimentos em supermercados. Acho melhor parar de falar de mim e continuar a história. É normal isso, sempre me perco falando de assuntos interessantes.
Se me permitem falar, sou um verdadeiro “pegador”. As mulheres se derretiam por mim, eu apenas as satisfazia. Era apenas um mero instrumento de suas vontades. Acreditava que um dia ia encontrar a pessoa pela qual eu me apaixonaria, mas enquanto ela não chegava, eu aproveitava. Foram muitos anos nesse estilo de vida, mas eu era um cara consciente, usava todos os tipos de proteção para não pegar doença nem ter a surpresa da paternidade. Como é bom lembrar desse tempo.
Quando fui sair com os meus amigos para comemorar um aniversário, tive a visão mais magnífica que poderia ter. Ela não era do tipo de mulher que eu me envolveria, mas aqueles olhos eram tudo que sempre pedi a Deus. Eu estava acostumado a “pegar” mulheres que poderiam dar inveja a qualquer um, mas sempre me enjoava depois de um tempo. Sabe aquele tipo de mulher que ao abrir a boca você se esquece o motivo de estar com ela? Fiquei um bom tempo a contemplar aqueles orbes negros, eu sou um “cara” que “gama” em olhos negros. Eu apenas tinha visto algo parecido, quando era pequeno. Uma amiga perdida no tempo.
- Acorda Marco. – disse meu amigo Serafim enquanto estralava o dedo na minha frente. – Alguma “gatinha”? – tentou olhar para o mesmo lugar que eu. – Está de olho na magrela ali? – junto à mulher dos olhos negros, pude ver uma mulher magrela que me deu arrepio ao ver suas pernas. Ela estava com um vestido vermelho que mostravam metade da coxa para baixo. Eram tão finas suas pernas que nem sei como não quebravam. Era uma ruiva branquinha, com pequenas sardas ao redor de suas bochechas. Tinha um corpo que mostrava ter curvas, olhos que não pude definir na hora, já que estávamos numa boate que tem luzes piscando a todo o momento. Posso falar que ela não é de jogar fora, mas tem um fator que me impediria de “pegá-la”, as pernas eram muito do tipo “cambito”. Não queria que o “retardado” do meu amigo pensasse que eu estava interessado na baixinha ao lado, a que eu “gamei”.
- É essa mesma. Só não sei como me aproximar dela. – adoro esse cara, pois o conheço desde que éramos pequenos. A melhor qualidade dele era o seu dom de achar desculpas para “chegar” na “mulherada”.
- Não acredito que você ainda não a reconheceu. – o que ele tava falando? Reconhecer quem? – Aquela ali de camiseta branca ao lado da ruiva é a Alicinha. Lembra a garota que brincava com agente no parquinho em Catanduva? – sou originário de Catanduva, vim para São Paulo para estudar e daqui não sai mais. – Olha a sua sorte, moleque.
Na hora fiquei pasmo. Então era ela mesma. A única pessoa que tinha olhos tão negros era a Alicinha, e agora eu a reencontrava. Um sorriso brotou de meus lábios. Então aquela garotinha baixinha, gordinha e que usava óculos tinha mudado alguma coisa. Ela ainda continuava baixinha, mas acho que o tempo foi bom para ela. Não era a mulher mais linda que eu já tinha visto, mas era a mais fascinante. Ela devia usar lentes agora, seu corpo não era muito do padrão de passarela, mas suas curvas eram extremamente realçastes. A roupa era discreta, devia estar lá apenas para acompanhar a magrela. Chegamos devagar, a minha deusa vestia uma camiseta branca e uma calça jeans estilizada. A roupa poderia ser simples, mas era linda como a sua cor era realçada pelo contraste com a cor da camiseta. A minha deusa era uma morena muito jeitosa. Ai de quem vir com preconceito para cima dela.
- Oi. – Alicinha comentou alguma coisa para a ruiva e essa deu um sorriso – Você não é a Alicinha Morais que morou em Catanduva? – falava o meu amigo com um sorriso de comercial de pata de dente.
- Então você me reconheceu, Serafim. – ela ficava linda quando sorria. Ela olhou mais atrás dele e pode me ver aproximando – E esse não é o Quindim? – deixa-me explicar esse pequeno apelido. Quando eu era muito pequeno, gostava de comer muito, muito, muito quindim e tiveram essa brilhante idéia de me chamar assim. Eu era um moleque magrelo quando pequeno, nada que se assemelhe ao que sou.
- Sou eu sim, Alicinha. Vejo que o tempo fez a senhorita mudar um pouco, mas continua a mesma baixinha. – sempre adorei implicar com a sua altura, mas nada que impedisse de termos laços de amizade.
- Digo o mesmo para você, o magrelo se tornou um belo rapaz. – ela disse como aquelas velhas que nos vêem de criança e depois de uma vida voltam a nos ver. Sempre com seu jeitinho irônico.
- Sempre a mesma coisa de sempre. – disse Serafim. Meu amigo era o único que não havia mudado muito, sempre foi do tipo que as garotas brigavam para namorar.
Nos cumprimentamos como todas as pessoas que não vêem amigos de infância. Éramos o trio que mais aprontava, mas acabamos perdendo contados com ela assim que se mudou para outro estado. Nunca senti algo especial por ela, era um garoto que só queria aprontar. E nesse quesito eu posso dizer que fui mestre. Comecei a me interessar pelo sexo oposto apenas quando entrei no colegial e vi aqueles monumentos. A partir daí eu comecei a cuidar da minha perfeição. Sai de um garoto magrelo para o delírio das mulheres.
Conversa vem, conversa vai, acabamos passando a noite toda ao lado delas. Serafim acabou se envolvendo com a ruiva que era uma amiga muito antiga de Alicinha. Ela se chamava Camila, um nome que combinava com a moça. Fiquei a noite toda ao lado da minha deusa dos olhos negros, mas para não mostrar que tinha interesse nela, fiquei com uma tal de Jéssica, nem sei da onde aquela mulher apareceu. Ela beija muito mal, fiquei nem uma hora com ela e já corri para o lado da minha velha amiga. Ela pelo que pude ver não queria “papo” com ninguém. Melhor assim.
Se eu ficar contando todos os encontros que tivemos depois desse vou passar muito tempo falando e não poderei concretizar a minha vingança que vai acontecer daqui a pouco. Resumindo o trio voltou a sair junto, mas para programas mais “cabeça”. Pois a Alicinha não gostava muito de sair à noite para dançar. Só tinha ido mesmo por insistência da Camila. O tempo foi passando e acabei por roubar um beijo da morena.
Contando o caso mais detalhadamente. Estávamos num parque de diversões apenas nós quatro, mas acabamos ficando a sós eu e ela, já que o Serafim e a Camila acharam um assunto em comum, que envolvia bocas e mãos. Não me perguntem onde eles estavam, mas que demoraram, isso demoraram. Continuando. Estávamos numa mesa comendo um hambúrguer do próprio parque, quando o assunto ficou um pouco escasso, fiquei a admirar seus lábios carnudos enquanto comia. Assim que ela terminou sua refeição não agüentei e por impulso a beijei. Não posso falar que foi um beijo muito bom, pois ainda tinha comida em sua boca e quase vomitei ao sentir isso. Ela ficou estática, mas quando viu a minha cara de nojo mergulhou numa gargalhada gostosa. Recuperei-me e olhei feio para ela.
- Qual é a graça? – ela me olhou com suas lindas perolas negras.
- É que você tentou dar uma de galanteador com o beijo e se deu mal. – ela tinha razão. – Então você quer me beijar? – anui e ela me puxou para junto dela e me mostrou que realmente beijava bem. Fiquei um bom tempo descobrindo as partes de sua boca. Não sei falar se sentia alguma coisa por ela, mas os seus olhos eram algo que eu queria me perder quando apreciava. O tempo passou e repetimos várias vezes, mas não estávamos lá para esse tipo de diversão. Continuamos a visita aos brinquedos, mas sempre repetíamos a nossa brincadeira.
Encontramos os dois sumidos amassados. Depois desse dia comecei a ficar constantemente com a Alicinha, mas alguma coisa nela impedia que chegássemos a um estágio um pouco mais avançado. Sempre que as coisas esquentavam, ela me empurrava. Nesses momentos me sentia só, meu corpo ansiava por mais. Mas fui paciente com ela, respeitei seus limites. As coisas foram ficando sérias e começamos a namorar. Meu segundo namoro na vida. O primeiro tinha sido com uma tal de Carla, mas ela era muito oferecida e não suportei mais que três meses de namoro. Num dos meus avanços eu não agüentei e quis saber o motivo dela não querer se entregar.
- Alicinha, qual é o verdadeiro motivo de você não querer continuar? – disse já num estado deprimente. A natureza estava querendo que a espécie fosse perpetuada.
- Acho que não posso mais esconder de você – nos sentamos no sofá da minha casa, peguei uma almofada e coloquei sobre meu “amigo” – Na noite que eu te reencontrei tinha acabado de terminar um noivado de três anos. Fui eu que terminei, mas sentia uma solidão correr por meu corpo. A Camila tinha resolvido me levar para sair e esquecer isso.
- Qual foi o motivo da separação. – sempre fui muito curioso, isso me deixava interessado nas conversas das mulheres e me dava um ponto positivo.
- Eu o vi me traindo. O peguei na cama com outra, desde então tenho um pouco de receio de avançar um pouco amais do que vamos. – tinha um desafio para vencer. Eu a abracei e me fiz de namorado compreensivo. Mas venhamos e convenhamos, eu não sou desse tipo de cara. Posso ser sensível, mas não sou outra mulher para entender.
O tempo foi passando, eu na minha necessidade natural de homem, começava a me incomodar de não poder me aliviar de meus desejos. As minhas sessões no banheiro já eram fracas. Esperei um ano para conseguir chegar onde queria. Respeitei a honra de minha namorada até o último minuto. Nesse momento eu já a amava e quando eu gosto fico fiel como um cachorrinho. Quando nos tornamos um, eu me senti o homem mais feliz e aliviado do mundo. As coisas começaram a se acertar de vez. Tínhamos sonhos juntos, deixei a minha vida de “pegador” e passei a ser um cara mais caseiro.
Continuei com o meu físico perfeito e a minha personalidade irresistível. Como alguns falam: “tinha ganhado uma coleira”. Tinha planejado pedi-la em casamento e enfim conseguir realizar o sonho da minha mãe. No meio dos meus planos ela me aparece com uma cara de que aprontou alguma. Os seus olhos negros não sabiam mentir. No meu apartamento pequeno, aqueles típicos de homens solteiros e desorganizados, ela começou a pior conversa que já tive na minha vida.
- Marco. – quando ela me chamava pelo nome era algo importante – Precisamos conversar.
- Sente então, Alicinha. – tinha acabado de sair de um banho demorado, ainda estava colocando minhas roupas. Sentei numa cadeira em frente a ela e a olhei todo bobo, como ela é linda.
- Acho que as coisas não estão dando certo. – Dá onde ela tirou isso? Para mim estava tudo perfeito. – Acho que deveríamos terminar.
- Como assim? – estava incrédulo. Ela queria me deixar? O cara mais perfeito do mundo? Só podia estar tendo um pesadelo. Levantei e fiquei de costas tentando assimilar o que tinha ouvido. Virei-me e a encarei – Como você pode me falar que quer terminar? Ontem você disse que me amava.
- Só disse por você ter dito, não sabia o que falar então concordei. – ela parecia fria, nunca tinha sido assim. – Foi por compaixão.
- Compaixão? Você viveu quase dois anos comigo por compaixão? – uma ira me tirou a calma que tentava manter.
- Não era isso que quis dizer. Eu gostei muito de estar com você, mas não consegui esquecer do meu ex-noivo. – ela parecia que ia começar a chorar.
- Você pode não querer ter dito, mas disse. Ficou comigo quase dois anos e não me amou? – esfregava minhas mãos nos meus cachos. Ela não era a mesma que eu tinha amado, alguma coisa tinha mudado. – Você sabe quanto tempo eu fiquei planejando te pedir em casamento? – ela me olhou surpresa. Fui correndo até a minha cômoda e tirei um pacotinho. Abri e joguei nela duas alianças. – Planejei te pedir em casamento no dia do nosso aniversário de dois anos. Tinha planejado como você tinha me contado numa dessas noites.
- Desculpe. – ela caiu de joelhos e chorava – Eu queria te amar, mas não consigo. Os momentos que eu passei com você foram os melhores até hoje, mas meu coração já é de outro.
- Não adianta me pedir desculpas. Se eu não sou bom o bastante para você, então vá para quem você quer. Senão me engano ele esta na cama com outra. Só quero saber o que te fez mudar de idéia.
- Você é bom para qualquer mulher. – disse se levantando tentando me consolar.
- Qualquer uma menos você. – disse a empurrando quando tentou se aproximar.
- Ontem depois de sair daqui, encontrei o Dérik. – o nome do desgraçado que roubou o meu amor – Ele tentou voltar, disse que se arrependia por ter me deixado. Argumentei que já tinha alguém, mas ele não desistiu. Acabamos nos entregando. Hoje cedo percebi que não te merecia. Resolvi dar mais uma chance ao meu coração.
- Você está dizendo que aquele branquelo, fraquinho e ignorante americano conseguiu você de volta. – parei um pouco e gritei – E o pior eu sou um corno.
- Desculpe. – nem sei como estávamos dispostos no apartamento. – Não queria que as coisas acabassem assim.
- Não adianta me pedir desculpas. Se você quiser ficar comigo eu perdôo a sua traição. Amo-te muito e não quero ficar longe de você. – estava disposto a ignorar o que ela me contará se ela quisesse ficar comigo. Engoliria o meu orgulho.
- Você não entende, Quindim. Eu o amo e vou ficar com ele. – ela parecia que já estava pronta para ir.
- Se não me quer, há quem queira. Saia daqui. – gritei e a vi sair de meu apartamento.
Há primeira semana eu fiquei um traste, nem quase conseguia trabalhar. Tinha me tornado um homem jogado. Mas depois com as palavras do Serafim eu me recuperei.
- Marco, você não é homem de ficar assim. Você quer que ela te veja assim e fique por cima? Siga em frente. – ele falou quando estava num bar bebendo “todas” que meu organismo agüentasse.
Depois disso voltei a ser eu mesmo. Fiquei com o coração partido, mas nunca fui muito de demonstrar que estava machucado. Estava disposto a esquecer Alicinha, mas quando eu a vi na televisão com esse tal de Dérik. Meu sangue ferveu e uma sede de vingança apareceu. Esse americano era um cara muito mais jovem que nós dois que estava tentando ser afirmar como jogador de futebol e só agora com 23 anos tinha conseguido um time bom. O meu amor tinha se tornado ódio puro. Ela estava feliz ao lado do seu mais novo namorado. O mesmo que deu um par de chifres para ela. Resolvi que deveria agir.
Voltei a ser amigo dela, conheci o jogador. Ele era branquinho, magro, e o seu QI não passava de zero. Conversar com ele era algo insuportável. Não tinha nenhum músculo, o pior era os dentes todos tortos que ele tinha. Até que tinha alguma beleza se ficasse com a boca fechada, tanto pelos dentes quanto pelas besteiras que falava.
Pedi ajuda a Serafim para em minha vingança, mas ele se negou. Tentei convencê-lo falando que tinha suspeitas que aquele cara estava traindo a nossa amiga. Ele em nome a nossa amizade aceitou. Não contei qual era o meu verdadeiro plano.
Foram quatro meses de pura falsidade. Ela estava mais feliz do que nunca, jamais imaginei que a sensação de estar a ponto de destruir um amor fosse tão boa. Nesse meio tempo colocamos detetives para rastrear os passos do Dérik. Não demorou muito para descobrir que ele a traia com várias mulheres. Serafim queria contar logo para ela, mas eu o convenci a esperar o momento oportuno, já que algo assim a machucaria muito.
- Marco, você tem certeza de que não está na hora de falar a verdade? – ele estava muito preocupado num dia em que saímos para jogar boliche. Ele tinha se acertado com e tal Camila e não saia mais para “pegar”.
- Serafim, eu bem que queria, mas precisamos preparar o terreno. Acho que se pedirmos a Camila que nos ajude, ficará mais fácil. – a minha maldade era extrema. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes.
- Acho que você tem razão. – e assim contamos para a moça e ela ficou muito triste pela amiga e se prontificou a ajudara contar.
No meio dessa busca do momento ideal, apareceu o meu momento. Haveria uma festa de aniversário para ela e falaram que fariam uma homenagem para a garota e o namorado ficou responsável por isso. Era a chance perfeita. Dei o meu jeito de colocar as fotos dele na cama com várias outras no meio da apresentação. Não me pergunte como fiz isso, mas pode ter certeza que não foi muito difícil. Sempre fui o rei nessas coisas, um dom que tenho desde criança. Agora estou aqui esperando tudo acontecer.
- Em 15 minutos, ela estará aqui. Arrumem tudo. Marco dá um auxilio para a “porta” do Dérik, ele não ta sabendo ligar o projetor. - falava Camila assim que dava os últimos detalhes.
Sai do lugar confortável e vou ajudar aquela anta, todos já se perguntavam como ela poderia agüentar aquele ser ignorante. Ajudei-o com os detalhes, ele não ia muito com a minha cara, pois era o antigo namorado da Alicinha. Nem ligava para isso, logo ele seria destruído. Volto para onde estava e fico observando o pessoal desesperado tentando arrumar as coisas. Era a casa da Camila onde vai ser a festa. O ambiente está muito agradável, colocaram alguns balões no quintal onde vai ser dado um churrasco. É uma casa grande, tem um quintal enorme onde mesas foram montadas, há muitas comidas e as carnes já começaram a ir para a chapa. Convidaram apenas alguns amigos e familiares. Era uma festa surpresa. Vi Serafim vindo em minha direção.
- Que sorriso maldoso é esse, “cara”? – falta pouco tempo para que ela chegasse e nada poderia estragar o meu plano.
- É que o meu plano vai se concretizar, a vingança enfim chegou. – ele me olha desesperado, larga o que estava fazendo e me puxa para dentro da casa.
- O que você fez? Não acredito que você continuou com essa idéia maluca de vingança. – senta-se na minha frente e fica esperando eu contar. Com um sorriso debochado eu começo a contar o meu plano.
- Eu apenas armei uma coisinha simples. – ele não acredita que eu estou falando isso – Peguei as fotos do jogadorzinho a traindo e coloquei ao final da apresentação dele. Vai ser muito bom poder ver eles se separando.
- Você ta louco? Vai ser uma humilhação que vai traumatizar a garota. Você não é assim, nunca vi você fazer mal para alguém para se vingar. – parece que ele quer me convencer. Nada pode me fazer mudar de idéia.
- Apenas quero que ela sinta que me trocou por um retardado. – digo com raiva e rancor.
- E a melhor maneira é humilhá-la perante todos que a amam? – ele realmente é uma pessoa muito boa.
- Ela me humilhou a partir do momento que me deixou daquele jeito. Traiu-me no momento que me declarei para ela e o pior que falou “eu te amo” por compaixão. – despejo o que estava entalado na minha garganta. Dizer me fez muito bem.
- E acha que vai resolver alguma coisa você a machucar dessa maneira? Vai adiantar ela ficar chorando por tua culpa? Pois quem promoverá a vingança vai ser você. Você não a quer de volta?
Realmente não tinha pensado nisso: tê-la de volta. Seria algo inimaginável se a vingança se concretizasse. Sei que ela não largaria o seu adorável jogador de futebol que tem QI de lesma para ficar com um cara perfeito como eu. E também eu não vou ficar correndo atrás dela para ela ficar me esnobando. Nunca corri atrás de mulher que me afastou, sempre sigo em frente e elas que caiam aos meus pés.
- E você acha que ela largaria o tão amado namorado para ficar comigo? Posso ter um jeito magnífico, mas ele tem o coração dela. Não sou de ficar correndo atrás de quem não me quer, tenho orgulho. – falo fixando meus olhos nele.
- Não queria te dar esperanças, mas a Camila me falou que a Alicinha não esta agüentando mais aquele cara. Desconfia que esteja sendo traída. – dei um sorrisinho ao ouvir isso – E se arrepende muito por ter te deixado. Hoje ela vê o erro que cometeu ao te largar. Ela estava pensando em voltar para você. – essas palavras fizeram com que minha sede diminuísse, uma agonia me tomou. Ela estava reconhecendo o meu valor?
- Mas eu ainda não a fiz se arrepender por ter esnobado os meus sentimentos, feito todos os meus sonhos serem destruídos. – sinto vontade de me enfiar na bebida novamente. Nunca fui de beber e ela conseguiu isso. – Ela me fez me acabar durante uma semana no álcool.
- Você quer vingança maior do que ela ver todas as suas qualidades? – o que ele esta falando? – Camila me falou que ela se sentiu muito mal ao te ver largado ao álcool, mas ficou admirada que em uma semana tenha conseguido tocar a vida. Sentiu-se muito mal ao ver que você conseguia viver sem ela. Ver que você podia ser uma pessoa maravilhosa, pois voltou a ser amigo dela, não tentou nada para dar o troco. Ela constatou que te amava, mas tinha medo de se envolver e se refugiou no passado. Ela admirou que você agüentou um ano para aprofundarem a relação, mas que o namorado dela não conseguiu agüentar nem uma noite e logo brigou por isso. Ela sabe que você é perfeito.
- Então se eu deixar o meu plano der certo, eu vou terminar com as minhas chances de me dar bem. Pois quando ela souber que ele a trai, ela pode vir correndo para mim e eu a terei em meus braços. – se tudo der como planejei, eu vou me dar mal. E isso eu não quero de jeito nenhum.
- E como você pretende impedir que sua estratégia se realize? Já que você é o rei das armações? – ele diz irônico.
- Eu consigo, mas preciso de você, pois para enganar a porta é fácil, mas o pessoal não. – me levanto, olho para o relógio – Temos 5 minutos para agir.
- E qual é o seu plano? – desde pequeno ele sempre achava que eu devia ser doente para bolar os meus planos malucos.
- Muito simples. – não posso desperdiçar essa chance para dar o meu sorriso de superior. – Eu fiz com que a apresentação ficasse depois das fotos dela. Então ele pensa que termina a apresentação num ponto. O que temos que fazer é apagar a força nessa hora, pois ele, que é uma anta, vai afirmar que acabou a apresentação. Você vai ter que dar um jeito nisso acontecer, eu vou me levantar e começar as palmas e nessa hora você desliga tudo. - Juro que não sei como você consegue bolar essas idéias. Pode deixar, mas eu cuido para que o pessoal não suspeitar dessa falta de energia.
Volto para o meu lugarzinho e olho a movimentação para arrumar tudo. Como esse cara é estúpido. Não é para menos que falam que jogador é burro. Com uma figura como essa, a maioria vai pensar assim. Eu sei que isso é mentira, mas parece que os “caras” querem manter essa imagem. Um amigo meu é jogador e é um verdadeiro culto. Logo o meu plano vai dar certo, vou ter a minha Alicinha de volta e tudo vai voltar ao normal.
O Serafim tinha razão, como não pensei nisso antes? Eu realmente me equivoquei nesse momento, algo que não é comum acontecer. Logo tudo está arrumado antes da aniversariante chegar, ela não esperava uma festa surpresa. Se tivesse comigo eu ia fazer ela pensar que íamos jantar fora, mas antes tínhamos que pegar um presente na casa da Camila. Mas como ela está com uma anta, isso não é possível. Foi enrolada pelo pai que insistia em sair para passar a tarde com ele e a Camila para comprar um presente. Eles estavam vindo buscar a amiga.
Como as pessoas ficam abobalhadas ao verem todos reunidos em seu aniversário. Nunca conseguiram me pegar, por isso não sei como é essa sensação. É, às vezes ser perfeito tem as suas desvantagens. O pessoal vai todo abraçá-la, vou esperar para ser o último. Quanta coisa ela ganhou, tomara que ela goste do meu presente. É surpresa. Acho que chegou a minha hora de falar parabéns.
- Feliz aniversário, Alicinha. Espero que hoje seja um dia maravilhoso e que você tenha muita saúde e paz. O meu presente é o papel laranja. – digo enquanto a abraço. É muito bom voltar a estar nesses braços, espero que não demore muito.
- Obrigada, Quindim. - se separa de mim, mas o que o Serafim falou deve ser verdade mesmo, já que ela não me chama assim desde que nos separamos. Agora só preciso esperar o meu plano destruir a minha vingança. As coisas vão correndo normalmente, todos comem, conversam. Como não sou nenhum anti-social me integro à festa. A salada de batatas esta muito gostosa como todo o resto.
É chegada à hora do Dérik fazer a homenagem a Alicinha. Lembro-me de algumas daquelas fotos, outras nunca ia imaginar que elas existiam. Ela andou de caiaque, e olha essa na Disney. A vida dela foi muito boa sem mim, mas sei que será muito melhor comigo. Essa é a última foto antes da minha surpresa. Assim que para na mensagem “Feliz aniversário, meu amor” eu já me levanto e bato palmas e como que por benção a força acaba.
- O que aconteceu aqui? – é a pergunta que todos fazem. Ainda são cinco horas e tem alguma luminosidade entrando pelas cortinas fechadas. Estamos dentro da casa da Camila para poder ver melhor.
- Acho que o fusível queimou, deixa que eu vá ver. – se prontificou Serafim. Depois de algum tempo a força voltou.
- Dérik, a sua apresentação já tinha terminado? – pergunta um dos convidados.
- Yes. Que sorte! – esqueci de mencionar, ele tem um sotaque insuportável. E tudo sai como planejo. Sou demais mesmo.
O resto do aniversário foi normal, sabe como são essas festas de família. As coisas correram normais nesses dias posteriores à festa. Acho que já esta mais no que na hora de contarmos para ela o que descobrimos. Quanto tempo mais passar será pior e também estou com saudade de senti-la perto de mim. Chamo o “Casal 20” e decido falar o que tanto me aflige.
- Serafim, acho que já ta mais que na hora de contarmos a verdade dessa anta para a Alicinha. – digo sério, normalmente eu não ficaria, mas estamos falando da felicidade de uma pessoa, eu.
- Eu também acho, mas a Camila está com receio de contar. – ele olha para a namorada – Amor, acho que ele está certo.
- Eu sei que o ideal é contar assim que descobrimos, mas estou com muito medo de como ela vai reagir. Vocês não sabem como foi difícil para ela da outra vez. Foram dias chorando e eu tentando a consolar. – posso ver que a sua voz esta embargada. Ela deve ter sofrido muito nessa separação, mas elas não estariam sozinhas. Ela tem a mim e isso muda completamente a história.
- Mas dessa vez estamos aqui para apóiá-la. Acredito que ela sentirá um grande baque, mas terá muitos que a querem bem ao seu lado. – tento ser a pessoa mais serena que consigo.
- Mimi, você mesma disse que ela estava querendo se separar dele, isso apenas será um motivo a mais. Se ela não gosta mais tanto dele, tenho certeza de que a dor será menor. – palavras sábias essas que Serafim disse, só faltou mencionar que logo ela estaria em meus braços sendo reconfortada.
Planejamos fazer um jantar para nós quatro, algo simples apenas para passar o tempo. A nossa sorte foi que o “imbecil” estava na concentração e nem precisamos achar uma desculpa para ele não ir. Contaríamos tudo após comermos, seria a minha casa, pois insisti muito. Ao meu ver, era um lugar que não levantaria tanta suspeita, nem sei na verdade o motivo de pensar assim.
Usei mais um dos meus talentos e cozinhei algo saboroso para quatro pessoas. O jantar foi normal, nada que levantasse a suspeita do que estava para vir. Eu e a Alicinha ficávamos sempre de velas para aqueles dois. Assim que saboreamos o maravilho mousse de chocolate, que modéstia parte, tinha um sabor divinal. Agora estamos os quatro conversando sobre futilidades da vida e o assunto principal não é tocado. Acho melhor, eu fazer as honras.
- Bons tempos aqueles. – Serafim tinha contado um dos meus “rolos” no colegial. – eu era um pegador mesmo.
- Eu não entendo o motivo de você não ser mais o mesmo depois que terminamos? – fala de forma pensativa Alicinha. Acho que ela disse sem pensar, parecia mais um pensamento para si mesma que um comentário. Ficamos em silêncio, ninguém sabia o que falar. Era um assunto tabu que existia entre nós quatro. – Desculpa, nem percebi que tinha falado. – ela tenta de todas as maneiras remediar, mas eu não quero que as coisas fiquem dessa forma.
- Acho que são apenas voltas da vida. Não se preocupe, o seu comentário não foi ofensivo. – mais um silêncio arrasador – Não agüento mais ficar enrolando para contar para ela. Acho que vou ser eu que vou contar.
- Contar o que? – pergunta toda confusa a morena. Eles apenas me olham e parece que falam para continuar o que comecei. Melhor contar toda a verdade desde o início.
- O que descobrimos. Mas antes de você questionar, ouça e depois decida o que você deve achar. – ela me olhou com uma cara de dar dó, parecia que já pressentia o que estava para ouvir – Quando você me deixou, mergulhei numa depressão muito grande. Mas depois me recuperei. Uma necessidade de vingança tomou o meu ser.
- Como assim vingança? – ela parece que não acredita no que eu disse. Algumas pessoas devem tentar entender o motivo de eu contar toda a verdade. Sou um tipo de pessoa que gosta de ser verdadeiro, posso ter os meus momentos de maldade, mas nada que queira fazer a menina a minha frente achar que sou um santo.
- Eu pedi para o Serafim me ajudar numa investigação, tinha em mente mostrar que o seu namorado a traia. – ela olha feio para o meu amigo e ele se recolhe sem graça. – Mas ele não aceitou, então passei a falar que seria por causa de uma desconfiança minha. Quase destruí a sua festa com o que descobrimos. – ela parecia que não me reconhecia – Mas percebi que não deveria fazer isso, o Serafim ajudou muito nisso. Sei que você deve estar me achando um monstro, mas eu estava com ódio, não raciocinava direito. Mas não é esse motivo por estarmos aqui na sua frente, queremos te dizer que o Dérik te traiu inúmeras vezes. – ela me olha de um jeito que nunca esperei um dia ver. Entreguei lhe um envelope – Essas são as fotos. Resolvemos te contar agora, pois a coragem não tinha nos abençoado com o seu dom e não queríamos te machucar.
- Você todos sabiam disso? – ela parecia um bicho acuado tentando atacar para se defender. Meus amigos nem tinham palavras para rebater o que ela os acusava.
- Eles não têm culpa de nada. Se alguém tem culpa é o seu namorado e eu que não vi que a machucaria ao descobrir isso. – ela se levantou e foi para a janela, fiz sinal para que eles nos deixassem a sós. Tenho certeza de que ela vai descontar toda a sua raiva e precisa depois de alguém para chorar e a melhor pessoa era a Camila – Acredito que ela vai precisar de você, deixa-a descarregar tudo em mim.
- Amiga, vamos deixar vocês dois. Se precisar você sabe que minha casa esta aberta a qualquer momento. – eles se despediram e ela não pronunciou nenhuma palavra, assim que ouviu a porta bater se virou.
- Por que? – ela chora de forma compulsiva.
- Ele não te merece, nunca gostou de você de verdade. – como posso justificar uma traição de um cara que acho que o QI é negativo?
- Não me importo de ter sido traída por aquela coisa. Só estou um pouco com o orgulho ferido, mas nada que não seja curado. Quero saber o motivo de você desistir da sua vingança? Eu entendo perfeitamente que eu te dei motivos para tal. – Desta vez não espera que ela se importe mais pelo fato de não completar a minha vingança do que de ser traída. - Não sei se você vai gostar do que você vai ouvir. – o que posso falar?
- Não me importa, só quero a mais pura verdade e sei que você não é do tipo de pessoa que recusaria esse pedido. – ela me conhecia pelo menos de alguma forma. Nunca recusaria um pedido desses, muito menos um dela.
- A única verdade que pode existir é... – qual é a verdade? Vou falar o que me vier a mente, pois essa será a verdade. – O Serafim me contou que podia ter-lhe de volta. Ele me mostrou que a minha única vingança era mostrar que você tinha perdido alguém como eu. Posso pensar muito em mim, mas eu não sou um cara sem sentimentos. Mesmo tentando agir como se não sentisse a sua falta, eu não consigo viver sem você. Posso ser perfeito, mas não adianta nada ser assim se não posso ter a única mulher que quero. A única que tem esses olhos que me prendem.
Alicinha esta quieta demais. Acho que mais uma vez as minhas palavras deixaram uma mulher sem elas. Já posso sentir os meus ouvidos serem carregados com um banho de palavras descontroladas que normalmente as mulheres despejam. Ela chega um pouco mais perto de mim, posso sentir o seu calor.
- Então você ainda quer voltar para mim? – apenas anuo. Um sorriso de satisfação brota no semblante dela. – Você pode me mostrar? – envolve meu pescoço com os braços. Já viram o que terei que fazer, um sacrificado beijo.
Não espero nem mais um segundo, colo nossos lábios e me delicio com o seu gosto. Senti tanta saudade daquela sensação. Pode-se falar que estou em abstinência desde o nosso rompimento. Os beijos vão evoluindo e nessa hora já estamos no meio dos meus lençóis e eu mostrando que a amo. Nem passa pela minha cabeça a reação da anta. Acho que nem na dela, pois o jeito como se entregou apenas mostra que a minha falta é mais presente.
Mais uma vez meus planos se realizaram melhor que eu planejei. Sou parecido com o “Cebolinha” nesse sentido, mas meus planos dão certo. E assim passam as horas e ficamos cada vez mais unidos. Posso ter dormido pouco, mas essa é a noite que melhor descansei. O dia amanhece e a vida continua com um gostinho saboroso de Alicinha.
Acho que nem preciso falar que a anta deu um show ao saber da separação. Como queria ter visto a cara daquele panaca. E assim termina a minha história, ou melhor, se inicia. Planejo pedir essa mulher em casamento antes que ela decida arranjar outro problema e tenha que viver toda essa trapalhada novamente. O pedido vai ser assim que ela abrir o presente que eu lhe dei em seu aniversário. Acredite se quiser ela não abriu aquela caixa. Eu tinha colocado o anel que tinha comprado. Tinha planejado esfregar em sua cara o anel, mas nesse caso vou usar esse detalhe para poder me casar.
Pode-se falar que essa história é como simples olhos podem capturar um ser perfeito como eu. Nem vou perguntar se vocês gostaram, pois tudo que faço é magnífico. Até o meu casamento. E para falar que essa história não tem moral no final, apenas digo: Quer vingança? Planeje bem para você não se ferrar. Esse doce se come com cuidado.
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hehe...valeu