Passado Alterado
Você já pensou no seu passado? Desejou que fosse diferente? Aprendi que o passado pode ser enterrado, mas nunca apagado. O tempo pode apagar lembranças e sentimentos, mas nunca o que aconteceu. E se você pudesse mudar o seu passado viajando por ele? Sei que nunca vão acreditar no que eu vivi. Voltei para o meu passado, mudei e. Prefiro não falar agora se foi bom ou não muda-lo.
Quando era menor, apaixonei-me perdidamente por alguém. Sei que isso sempre acontece, mas não quando você tem apenas 10 anos de idade e não entende nada do mundo. Precoce. Algo que nunca fui. Tardia. A definição da minha vida. Mesmo para aquele tempo eu era muito mais atrasa do que a maioria das crianças.
Sempre julgamos que seria melhor se algo diferente tivesse acontecido. Seria engraçado ver o mundo como as pessoas desejariam. Tudo começou quando encontrei uma simples pedrinha na beira de um rio. Ela trouxe-me lembranças de quando amava. Nunca mais amei ninguém.
Depois de encontrar a pedra, voltei para casa. Fiz um pingente com a pedrinha. Passaram-se alguns dias e ainda sim o sentimento de tristeza cortava o meu peito. Por imaturidade, consegui perder o que mais amava. Meu amado, mais velho que tentou dizer que amava, mas fugi com tudo que pude. Fiz-me de desentendida. E o destino calhou em nos separar. Depois soube que a morte o agraciou com seu beijo fúnebre.
Amargurei por muito tempo. Quando se volta no tempo, você nunca vira o mesmo, apenas começa a coexiste com sigo mesmo, mas não pode se tocar. Aprendi essa regra com um Guardião do tempo. Vou começar a relatar tudo que aconteceu.
Depois dos dias se passarem, a idéia de voltar no tempo perseguia-me. Não sei quando ela surgiu, mas virou minha companheira. Como se por mágica, tive uma vertigem e uma alucinação ou coisa parecida. Um senhor velho com uma barba e cabelos muitos longos e brancos. Vestindo um casaco que ia até o chão e o cobria por inteiro. Preto como o céu noturno cheio de estrelas. Podia jurar que era igual a constelações.
- São poucas as pessoas que conseguem fazer essa viagem. – falou em uma voz doce e tranqüila – Apenas aqueles com sentimentos verdadeiros e com um alto poder espiritual conseguem chegar até aqui. Você deve aprender algumas coisas para poder viajar, pois sua existência pode ser destruída.
- Espera um pouco. – disse sarcástica – Para onde vou e por que tenho que arriscar a minha vida?
- Você desejou voltar ao passado. Porém mexer com o tempo é perigoso. Seu sentimento é verdadeiro, porém depende apenas de você decidir o que fazer. – era incrível como ele era calmo.
- Eu vou voltar para o passado? Quando tinha 10 anos? E isso custa a minha vida? E qual é a vantagem de morrer? – naquela hora já estava incrédula.
- Não disse que custa a sua vida. – parecia que não era a única que fazia essa confusão – Apenas digo se não tomar cuidado não poderá existir novamente em seu tempo e naturalmente você será tragada pelo vácuo que se formará na espiral do tempo e espaço.
- Devo estar sonhando. – negação. Queria não ter feito isso.
- Sinto ter que fazer isso, mas não está sonhando. – Senti meu corpo quase se dilacerar em dor. – Acredita agora? – anui – Ouça o que tenho a dizer.
Foram passadas as regras para que o pior não acontecesse. Vou listar aqui:
- O passado pode ser mudado, mas isso afeta o futuro;
- Nunca se deve tocar a si mesmo. Ou sua existência é destruída e a espiral modificada;
- É necessário que haja certeza do que deseja mudar. Uma vez mudado, a regra um é invalidada;
- Não existe destino, mas a natureza tem o seu ciclo e isso nunca muda;
- É possível contar ao seu eu antigo, mas nunca tocar.
Depois aceitar e entender todas as regras, fui mandada para o passado. Exatamente no momento em que meu amado tentava declarar-se. É engraçado se ver no passado. Seus gestos e forma de ver o passado podem ser diferentes, mas a sensação do mundo é a mesma. Sentia todos os sentimentos do meu eu antigo.
O eu antigo estava brincando com ele. Do nada ele parou e ficou vendo-me correr. Na inocência de sempre, não entendi o que queria. Pulei em cima dele.
- Esta com você. – ria na felicidade de estar com ele, mas não podia desejar mais nada. Não conhecia o que desejar.
Ele tinha olhos tristes. Com apenas três anos mais velho, ele via o mundo de maneira totalmente diferente. Com delicadeza tirou-me de cima de si e começou a falar coisas estranhas para mim naquele momento.
- Sabe de uma coisa, você é bonitinha quando ri assim. – eu (presente) pude sentir o calor e confusão que tomaram o meu antigo eu. Ainda assistindo, pude ver-me coçar a cabeça e continuar a correr. Era como um instinto falando para negar aquele momento.
- Não entendi nada, mas vamos continuar a brincar. – disfarçava a minha falta de conforto com a situação correndo como uma retardada em círculos.
Fui observando que sempre que chegávamos perto ele falava alguma coisa relacionada de gostar de mim, achar-me bonita e querer namorar comigo. Não se ainda porque fiquei apenas assistindo. Algo me falava que deveria intervir, mas não conseguia parar de sentir os sentimentos da minha pequena eu. Assim a noite caiu.
Ela fugiu o dia inteiro dele. Fingia que não ouvia. Ele chegou até a soletrar para ver se eu entendia, mas era incrível como fugia. Andando pelo condomínio, a antiga eu olhava para baixo e tentava entender o que acontecia. Dirigi-me a mim e sentei-me ao lago de onde estava parada.
- É confuso entender, né? – disse com uma voz mansa, nem parecia eu mesma.
- O que você pode saber? – estava muito estúpida naquele momento. – Nem eu sei o que acontece. Daqui a dois dias eu volto para casa e isso vai acabar.
- Posso te falar, eu sei o que você sente. Eu sou um eu seu do futuro. – olhei-me com cara de incrédula. – Algo que só eu, ou seja, você saberia, só assistia aos jogos de queimada na escola para não se sentir sozinha.
Depois de falar mais umas coisas pessoais e discutir comigo mesma. Fui convencida de que era do futuro. O que você faria naquele momento? Contaria tudo para o seu eu de 10 anos? Eu não entendia nem o meu sentimento.
- Eu não quero interferir assim diretamente na nossa decisão. Mas arrependo-me apenas de não saber o que sentia. Você gosta dele e ele de você. Você tem a decisão de ficar com ele ou de se separar para sempre. Hoje eu fico triste pode não amar mais ninguém.
- Mas, mas... – o meu antigo eu estava chorando.
Quis Abraçar-me, mas apenas ficamos ali sentadas. Eu sentia tudo que ela sentia, mas ela não sentia o que eu sentia. Fiquei refletindo sobre o que sentia, mas no meu presente. Será que eu estava pronta para amar alguém? Sentindo o que sentia quando pequena pude ver que a minha decisão foi correta. Eu não poderia força-me assim. Não tinha que mudar o passado e sim o presente.
As lembranças foram distorcidas e os sentimentos esquecidos. Arrependi-me de ter interferido no passado. Tive a chance saber que por mais que desejemos mudar o que aconteceu, apenas vivendo novamente podemos saber o que é melhor. As conseqüências são imprevisíveis, é melhor ter o que se sabe e se mudar no presente para se adaptar e assim melhorar o futuro.
- Desculpa por ter voltado. Quero que esqueça o que te disse, apenas pense no que você quer agora, o futuro é mutável.
- Ok. – eu não me lembrava, mas sempre me recuperava rápido das coisas. E com um sorriso no rosto sai saltitando para o chalé.
Desejei voltar ao meu futuro e assim o Guardião apareceu e levou-me ao mesmo lugar da alucinação. Explicou que o mundo não seria a mesma coisa que antes. E que o meu eu antigo ia distorcer a minha aparição com lembranças de uma desconhecida. E eu ia esquecer da viagem algum tempo depois, mas como já mudei o passado não posso voltar.
Voltando da vertigem, percebi que tinha alguém do meu lado. A minha sensação interior era diferente. Tive outra vertigem e muitas lembranças novas vieram a minha mente. Possuía duas histórias em mim. Tentando assimilar tudo. O rapaz ao meu lado estava preocupado.
- Vou te levar ao hospital – já estava me levantando nos braços.
- Não precisa. – livrei-me de seus braços. Corri para casa e estou aqui escrevendo. Sei que não vou lembrar, mas quero enviar para o mundo a minha mensagem. Não é passado que deve mudar e sim a maneira que o encaramos.
Vocês devem estar curiosos para saber o que aconteceu comigo depois de falar comigo mesma. Depois que entrei em casa, eu havia crescido. Podia entender o meu sentimento, mas sabia que não era hora para vivê-lo. Quando ele veio se declarar novamente falei o que o amava, mas ainda era muito jovem. Assim depois de anos nós nos reencontramos. Ele não morreu, pois o destino foi mudado. Porém era da natureza que não ficássemos juntos.
Nosso amor infantil tinha se decepado, mas eu amadureci de forma diferente. Consegui outros amores, apenas arrependo-me de ter amado tantas pessoas e não ficar com ninguém. A situação é a mesma que antes, não amei ninguém nunca tanto quanto ele. Sei que o ciclo da natureza me levaria para alguém que amarei, não importa quem seja, mas pude aproveitar mais a vida. Adaptei-me as novas conseqüências.
Mudando ou não o passado, eu devo aprender a não duvidar de mim mesma pelas minhas escolhas. Sou diferente hoje, mas cada lembrança, que está se apagando de mim hoje e sendo substituída por outra, é valiosa e isso não tem preço que pague.
Até
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hehe...valeu